A FANFARRA DO MARISTA E O CASTIGO
MERECIDO
(IVAN PEGORARO)

Passados 59 anos e 1 mês do acontecido, vou contar a
história da maldição do Maracanã. A fanfarra do Colégio Marista tinha um único
pistão (Trompete) nesta época e era meu, instrumento que não era fornecido pela
instituição. Dois anos antes desse fato, um sargento dos Fuzileiros Navais foi
convidado para dar uma remodelada na fanfarra que tinha por objetivo dos Irmãos
Maristas, ser um ícone em toda região. E
assim o fez, passando a residir no Colégio com a finalidade exclusiva de tratar
deste assunto. Apresentou um modelo de uniforme baseado nos próprios
fuzileiros, desde o bibico estilo militar, até as calças brancas com a lista lateral
vermelha, ao blusão desta cor com azul forte e o leão nas costas.
Concomitantemente, os ensaios eram rigorosos no pátio interno do Colégio, com
evoluções complicadas e a maior delas, a formação da âncora durante a marcha. E
aí veio a ideia, de se formar a âncora ao som da melodiosa canção “O CISNE
BRANCO”. Eu tinha o pistão que servia tão somente como corneta em “si” e não
sabia ler, como não sei até hoje, letra de música. (Acho que sou disléxico com relação
a notas musicais). Fui chamado pelo sargento que então me indagou se eu poderia
tocar aquela marcha, ao que respondi que não, porque não sabia ler pauta de
música. Ele então coçou a cabeça e me
disse. “-Vou lhe ensinar a tocar por
número, é fácil” E me ensinou cujo princípio é elementar. O Trompete tem três
pistões, por isso ele é chamado de “pistão”.
O primeiro deles mais perto de sua boca é o número 1, depois o 2 e
depois o 3. Se durante a música você tem de apertar simultaneamente o 1 e o 3, você
tem o 13. Se for o 1 e o 2, tem o 12. E assim por diante as demais
combinações. Aí, fomos durante alguns
dias compondo o CISNE BRANCO dentro desta fórmula, anotando tudo no cartãozinho
para que eu pudesse então fazer a leitura.
Literalmente composta a música com números, era só treinar, o que fiz do
afinco. Participamos naqueles anos que antecedeu 1963 de vários campeonatos de
fanfarra, não só no Paraná como nos Estados circunvizinhos. Disputamos um
torneio em São Paulo e fizemos várias apresentações no Brasil afora, sempre
como muito sucesso. Os comandos para início das apresentações, tipo “atenção” “ordinário”
“marche” eram todos feitos ao som do meu trompete. Eu era o pistonista mor,
tendo sucedido em 1960/1 o Mathias que também tocava instrumento de sopro. Arrigo Barnabé publicou há alguns anos uma
matéria sobre a fanfarra, sempre pela sua ótica, certamente desconhecendo
alguns detalhes que ora apresento. Pois bem em 16/11/1963 foi marcado um jogo
no Maracanã, entre Santos e Milan. Foi a final da International Cup, torneio
famoso, cujo jogo foi vencido pelo time brasileiro por um a zero. Surpresa
absoluta, a fanfarra do Colégio Marista de Londrina foi convidada para fazer a apresentação
no Estádio do Maracanã, gloriando a sua mais famosa evolução que era a formação
da âncora ao som do Cisne Branco. Aceito
o convite a fanfarra intensificou os seus preparativos fazendo treinamentos
diários inclusive em horários extra aulas, e não mais somente aos sábados a
partir da 10:00hs. Neste ano (1963) me envolvi
com minha primeira namoradinha e literalmente, nesses ensaios importantes
comecei a faltar, e faltei a vários deles principalmente naqueles intensos preparativos
para viagem. Pensava comigo que como o
Cisne Branco era tocado pelo meu trompete, eu era insubstituível. Que terrível engano
isso me causou e me serviu de lição de vida a qual nunca mais esqueci. Os Irmãos
Maristas e o saudoso Battini, nosso técnico, ao perceber que não podiam ficar
sem um segundo trompetista já tinham preparado outro componente que estava mais
do que apto para me substituir, o que na verdade já tinham feito. Uns dias antes do embarque os alunos
componentes da fanfarra foram avisados de que deveriam comparecer na sala de
reunião para receberem as orientações para o embarque. Tipo, horário, o que
levar, onde ficar etc.etc. E eu, belo e formoso compareci nesta reunião e ainda
sentei na primeira fila. Todos
presentes, adentrou o recinto o Irmão responsável e passou a discorrer sobre a
viagem e todos os seus detalhes. Em
seguida, várias perguntas, dali e daqui e tudo esclarecido, diz o Irmão olhando
para mim com aqueles olhos que jamais esquecerei: “Há!!! Tem um detalhe. O Ivan
Não vai porque está suspenso” Foi literalmente assim a comunicação. O silêncio
que já era penetrante, intensificou de tal maneira que até se podia ouvir os
ossos do esqueleto se movimentando. E prosseguiu: “-Não vai porque faltou aos
ensaios sem justificativa”. Não abri
minha boa, primeiro porque não tinha o que falar, e naquela época sequer se
questionava o motivo de qualquer decisão de um professor Marista. Ao chegar em casa
cabisbaixo e profundamente entristecido, comuniquei o fato ao meu pai e minha
mãe que ficaram ainda mais decepcionado do que eu propriamente. No dia
seguinte, pode? Foram falar com o Bispo Dom Geraldo Fernandes a fim de que
intercedesse em prol deste pobre adolescente. O Bispo de fato foi procurar
saber o corrido e após conversa com a diretoria, soube que o Reitor lhe disse
que se fosse uma ordem eles me levariam, caso contrário não, porque estavam de
dando uma lição de vida a servir para todos, inclusive prestigiando aqueles que
ensaiaram com afinco. Obviamente o
Bispo justificou que somente estava querendo saber as condições da decisão, mas
que estava tudo certo com ela. Não fui ao Maracanã!!!!

A fanfarra se apresentou e foi um
sucesso. No retorno dela, fui chamado
pelo Reitor que me disse que eu estava reintegrado nela, pois minha punição foi
cumprida. Mas eu não era mais um trompetista
mor e sim o Mário, aquele que foi preparado à minha revelia para me
substituir. Em meados de 1964, ao
participar de um concurso estadual na cidade de Bandeirantes, quando a fanfarra
iniciou sua apresentação já formatando a âncora, Mário iniciou o Cisne Branco e
como usava um “ponte móvel” nos dentes, essa se quebrou durante o começo da
melodia. Ele fez um sinal para mim que prossegui nos acordes até seu final. Deu
tudo certo e ganhamos mais um concurso de fanfarras. Com o passar dos anos
aquela mágoa profunda que tinha do episódio do castigo, passou a ser um
elemento de confiança e passei a entender a razão de ser responsável e cumprir
os compromissos. Que outro caminho tinham os Irmão senão me dar uma lição de
vida num momento propício como aquele? Fizeram o certo e agradeço por isso. Mas
duas consequências precisam ficar registras aqui para a história da fanfarra. Primeira.
Depois do episódio onde cobri o Mário terminando os acordes do Cisne Branco,
fui novamente promovido como trompetista mor, onde fiquei até final de 1965,
quando fui fazer o Clássico do Instituto Filadélfia. Nunca mais faltei aos
ensaios. Segundo. Até hoje não conheço do Maracanã. E jamais o conhecerei
porque aquele que era para eu ter conhecido, não existe mais.